Como continuar após a Mastectomia ?
A escolha deste tema se solidificou principalmente por acreditar que a sexualidade desempenha um papel de extrema importância na vida de todos nós, seres humanos, por representar um contato direto com nossas próprias emoções. Emoções estas que as mulheres, ao longo de toda uma história, sempre foram obrigadas a esconder em função do lugar que ocupavam na sociedade: controlador e rigoroso de preconceitos sobre seus comportamentos e atitudes sócio-sexuais.
Segundo o Senac (2000), no final do século XIX e início do século XX, mostrar o corpo ainda era um tabu. As mulheres distintas eram muito rígidas na apresentação, cobrindo-se da cabeça aos pés, com exceção dos trajes de noite que geralmente tinham um decote bem profundo deixando parte dos seios a mostra. A diferença entre o que se vestia ao longo do dia e à noite representa um paradoxo do contraste, da época, entre o recato e a sedução na moda feminina, refletindo comportamentos sociais caracterizados por uma dupla “moralidade”. (apud; Vasquez, M.L.R- 2003)
A partir do século XX os seios passaram a representar um novo símbolo, deixando a função única da reprodução humana e, ocupando um maior destaque, migraram para a função estética e sexual. Entretanto, autores como Wolf (1992) e Lypovetsky (2000) dizem tratar-se a beleza, de um produto cultural que, hoje em dia, estaria muito influenciado até mesmo por questões econômicas e políticas. (apud Vasquez, M.L.R- 2003)
Com o passar dos anos, a estética foi tomando outros rumos, que hoje podem ser vistos como uma verdadeira “ditadura”, contando com a participação intensa do marketing.
A mulher, por volta dos anos 60, inicia uma retrospectiva analógica sobre seu comportamento durante toda história, caminha para algumas mudanças, experimenta ocupar diferentes comportamentos e espaços na sociedade, que até então lhe eram proibidos. Sob a percepção deste novo paradigma e em paralelo ao movimento feminista, iniciam-se as maiores transformações em diversos setores da vida das mulheres: novos conceitos de estética, sexualidade, como também sua entrada no mercado de trabalho.
Através desta minha análise proposital, pretendo chegar à “ditadura estética”, com a qual “devemos”, hoje, estar em total sintonia e que leva muitas mulheres ao sofrimento, causando vários tipos de doenças psicossomáticas. Entender a imagem corporal como componente de auto conceito, auxilia para o entendimento dos seios como símbolos de feminilidade. A partir daí, não há então como dimensionar a dor de uma mulher mastectomisada. Mastectomia, segundo Ferreira (1999) quer dizer ablação (remoção de uma estrutura orgânica) de mama em extensão variável, podendo ser total.
Face a essa triste realidade, uma doença de proporção maligna, cada vez mais freqüente encontrada entre as mulheres, independente quanto à idade, raça ou nível sócio-econômico-cultural. E, na caminhada da vida, quando menos esperamos, somos pegos de surpresa direta ou indiretamente. Seguindo por este viés, tenho como experiência própria o câncer de mama sofrido por minha mãe quando toda família foi tomada, inesperadamente, por um profundo processo interno, intenso, de dúvidas e incertezas sobre esse tema que ainda hoje está vinculado à morte.
Certo dia pela manhã, minha mãe chamou-me para mostrar seu “caroço”. A partir daí, iniciaram-se algumas das muitas características que somam o “todo” de um conjunto de sofrimento. Primeiro, o enfrentamento da dificuldade em aceitar a doença, cuja descoberta implica na maioria das vezes, como citei anteriormente, na reflexão do medo da morte. Depois, lidar com as infinitas possibilidades de encarar a realização dos tratamentos extremamente agressivos e dolorosos como as cirurgias. Entretanto, enquanto estávamos todos ainda sob o efeito da notícia, não pude deixar de fazer uma retrospectiva da vida de minha mãe desde minha infância e adolescência.
Aquela mulher (minha mãe) cuidava de tudo e de todos da família, para que tudo funcionasse na mais perfeita ordem. Pude perceber, então, que o lugar que ela ocupava no mundo era sempre o último, abdicando-se totalmente do cuidar de si. O sentido de se colocar no mundo como SER de sua existência, não residia nela. Em momento algum, ela conseguia ouvir, ou falar, sobre a necessidade do cuidar de si. Utilizava-se de argumentos incabíveis, sem aceitação de trocas como: eu já não preciso mais ir ao ginecologista, já passei da idade, em minha família nunca houve histórias de câncer.... “Este era seu dogma” que, segundo José Schávelzon (apud Julio de Mello Filho e colaboradores) sob um sentido psicossomático: ”Um dogma é uma proposição pretensamente divina que nós mesmos tornamos indiscutível. A pessoa não consegue adaptar-se à realidade, resiste a qualquer tipo de modificação, assim criando seu dogma”. Ela, que sempre esteve tão distanciada de si, quando soube da possibilidade de morrer, por medo iniciou, pela primeira vez em toda sua existência, um processo de luta pela vida ou sobrevida.
Os conflitos internos generalizados são decorrentes das alterações psicológicas pela qual a mulher com câncer de mama é submetida. Quando ela recebe o infeliz diagnóstico, este atinge também toda família, causando uma verdadeira desordem psicológica. A mulher passa, desde o luto da perda do seio, a outros sucessivos sofrimentos características do processo, inclusive pelos diferentes tipos de tratamentos, que irão interferir com efeitos colaterais em seu organismo.
Após uma cirurgia parcial da mama, tratamentos radioterápicos e medicamentosos, os quais continuam até hoje, minha mãe venceu! Conseguiu curar-se! Há muito tempo ela faz parte “da melhor idade”, mas com a retirada parcial da mama e de posse da probabilidade de morte descartada, iniciou-se outro processo, que foi o de transitar por um sentimento dual: momentos felizes por estar viva cercada de afeto e atenção por seus familiares e a fragmentação enquanto mulher. Apesar de toda idade, havia sido retirado um complemento do conjunto de seus atributos sexuais.
Envelhecer não significa o fim do sexo, significa encontrar meios de aceitar as mudanças significativas no corpo e no seu funcionamento.
Aproveito para enfatizar uma crítica obtida através de toda esta experiência sobre o “mecanicismo” que ainda se encontra, talvez até mais engajado, à nossa medicina. Em nenhum momento pré ou pós-cirúrgico, minha mãe pôde contar com algum tipo de apoio terapêutico, ou até mesmo espiritual. Muito pior por considerarmos que ela estava sob cuidados de um qualificado hospital particular desta cidade, inclusive de ordem religiosa.
Mais uma vez pude comprovar a importância do apoio terapêutico, ainda tão pouco valorizado em nosso país, para quem passa por essa e tantas outras situações. E, como o “sistema mecanicista” da saúde, seja ele particular ou não, é deficitário, envolve interesses econômicos, mesmo já tendo em posse todo um suporte milionário.
Penso que por mais solidários que sejamos nunca poderemos saber exatamente a proporção destes conflitos internos, como e de que forma refletem na singularidade. Acredito, assim, numa maior possibilidade de enfrentamento deste sofrimento, através dos “grupos terapêuticos”, objetivo de meu projeto atual.
Evidencio que as partes do conjunto (o Grupo) se inter e intra-relacionam através de suportes e estratégias necessárias com um mesmo sentido, num ambiente acolhedor e harmonioso, sob troca de experiências que geram emoções e mudam o comportamento através da conscientização em compartilhar as experiências e dores de sofrimento semelhantes. É também através do grupo, que nos são mostradas outras possibilidades de escolhas, de mudanças, de projetos, de compartilhar afetos que motivam um novo caminho de viver. Compartilhar, também, afeto e amparo que muitas vezes, num momento tão difícil, não são encontrados na convivência familiar, e sim num grupo terapêutico.
Compartilhar no grupo as experiências no campo da sexualidade, aprendendo novamente a se relacionar sexualmente, sabendo valorizar outros atrativos sexuais femininos, assim como, utilizar “ferramentas” para erotizar à relação. Infelizmente, até hoje em nossa cultura uma grande maioria de pessoas vêem o sexo resumido na penetração pênis x vagina. Sexo é muito mais que isso, é a importância no estabelecimento de uma sexualidade em que o foco sensorial, “dos sentidos”, são nossos maiores estímulos para a expressão emocional e excitação. Como seria, então, para um paraplégico? Acabaria sua vida sexual? Claro que não! Outras partes do corpo são energizadas sexualmente, através do “contato” com nossa pele (tato), pelo olfato, visão, etc., cabendo a nós saber utilizá-las.
As mulheres que passam por essa situação do câncer, têm, no entanto uma tendência a ficarem tão isoladas em seu sofrimento, que não conseguem sair dele. É este o momento de unir todos os esforços possíveis e impossíveis, de poder ter um novo olhar de mundo, de reestruturação de vida: “CUIDAR DE SI”.
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