A MODA COMO FUNÇÃO ESTÉTICA
A estética é uma das funções da moda pela qual o ser humano tem a possibilidade de poder realçar sua beleza, sensualidade e sobressair-se em diferentes situações. Pode ser vista como, um solucionador da aparência com a possibilidade de esconder ou amenizar partes do corpo que não são atraentes.
A aparência passou a ser um jogo que, em grande parte se opõe à realidade através da dicotomia parecer versus ser, em uma performance em que o individual se sobrepõe ao coletivo, embora de certa forma dele se alimente. Ao desejo de ser percebido, é acrescentado o deleite de perceber os outros, resultando daí a conjugação de todos os verbos que descrevem as relações humanas: provocar, seduzir, conquistar, convencer.... Utilizando-a como estratégia em forma de manipulação, típicas do ser humano, como a utilização das máscaras sociais.
O corpo passa a fazer a ponte entre o real e o imaginário, assumindo o papel de um palco onde se desenrolam peças objetivamente simbolizadas pelas vestes em suas cores, formas e padrões e, subjetivamente, pelos desejos, ilusões e idealizações.
Como comenta Garcia (2002, p. 24): “Pela facilidade com que permite ao homem trocar de máscara e assumir diversos papéis sociais ao longo do dia, a roupa é um dos itens prediletos na hora de negociar com o imaginário.”
A beleza, vista como um ideal estético idealizado e como uma meta a ser alcançada é de certa forma, a regente desse novo corpo objetivo/subjetivo que em última análise, molda e justifica o fenômeno moda. Em sua função estética, assume então o papel social de construir e consertar o corpo humano em sua aparência, tendo como base a beleza “ideal” de cada época.
A roupa passa a funcionar como um recurso estético que, escondendo, realçando, amenizando e modificando regiões do corpo feminino, as quais, objetivamente ou subjetivamente estão fora dos padrões de beleza e tentam reconstruí-los, incrementando subjetivamente a auto-estima e o poder de sedução.
A moda, tenta transmitir uma beleza natural através de recursos artificiais. É o parecer sobrepujando o ser, obtido através de uma administração da aparência capaz tanto de interiorizar, um auto-contato. E, a de exteriorizar, manter contato, como forma de “estados de espírito” latentes em quem a usa. Sentir e inspirar possibilidades de mudança, e de sugerir velada ou escancaradamente certo grau de erotismo.
Segundo a Gestalt - Terapia, na perspectiva de Polster & Polster (2001), o “contato” é o sangue vital do crescimento, o meio para mudar a si mesmo e a experiência que se tem do mundo.
[..] fundamentalmente, um organismo vive em seu ambiente ao manter suas diferenças; e é na fronteira que os perigos são rejeitados, os obstáculos são superados e as coisas assimiláveis são selecionadas e integradas. Agora, aquilo que é assimilado é sempre novo; o organismo persiste ao assimilar o novo, ao mudar e crescer. (Polster; Polster, 2001, p. 113).
Nas sociedades ocidentais modernas, a moda estabelece alguns comporta-mentos estéticos em relação ao modo de vestir que, no entanto, adaptam-se aos estilos individuais. Existem pessoas que se vestem com versões mais baratas da moda atual, outras preferem vestir-se com roupas que foram moda há alguns anos, mas que são encontradas em pontos de venda especializados como brechós, bazares, etc. As mulheres modernas que consomem esse tipo de roupa mais antiga representam o retrô-chic que, para mulheres um pouco mais velhas, pode representar ainda uma moda adequada. É a transformação de uma moda aparentemente velha em algo moderno e atual. O uso de um velho jeans pode transformar-se em uma roupa informal ou ainda, em uma moda tão formal quanto um terno. Este tema tem um lado positivo: o direito individual em poder se vestir e se divertir com a moda de vez em quando, ao invés de passar muito tempo preocupando-se em deixar uma boa impressão à sociedade. Pode ser também, uma oportunidade que as mulheres têm de se remeter a um determinado período de vida, provocando sensações com um certo magnetismo, que até então pareciam estar amortecidas.
“A cada estação, o que a mulher busca é talvez, mais ainda do que um vestido, uma renovação de seu aspecto psicológico. A moda tem um papel a desempenhar junto à mulher: ajuda-a a ser. Pode até fazer-lhe às vezes de doping!” (Fischer-Mirkin, 2001, p. 135).
A roupa pode também ser utilizada como mais uma fonte de informação, na qual os psicoterapeutas têm condições de identificar e trabalhar questões trazidas pelos clientes. Como exemplo: aquela mulher que traz uma queixa de não ter condições financeiras de pagar o valor cobrado pela terapia e comparece a todas as sessões terapêuticas com roupas de “griffe”, não contextualizando a questão financeira trazida. Ela só pode estar pagando neste momento de sua vida, pelo valor que ela tem de si diante do mundo!.
Pode-se também, fazer uma relação com a psicoterapia, sobre a vestimenta num sonho, que pode estar fornecendo campo para que o terapeuta possa trabalhar com o cliente, conforme mostra o artigo Psychology, reward value of attrativeness and gaze (Sones, 2002):
In psychotherapy dreams about clothing often have to do with the words-the meaning given by the psychotherapist-to the patient/clients material. It has to do with ordering, the fashioning of the natural, a way of containing and quelling our fears about the dangerous aggression and sexuality of unbridled and untamed nature.
Em psicoterapia os sonhos sobre roupas freqüentemente tem a ver com as palavras - o significado dado pelos psicoterapeutas- ao material do paciente/clientes. Tem a ver com ordenação, a moda do natural, uma maneira de conter e reprimir nossos medos em relação a agressão perigosa e a sexualidade de natureza desenfreada e selvagem.
A moda representa, por todos estes aspectos, uma forma poderosa de expressão da personalidade feminina e um meio para ajudar a mulher na conquista de objetivos sociais, econômicos e afetivos, que poderão talvez implementar mudanças significativas em sua vida.
Segundo Wilson (1985), a moda tanto se transforma num veículo estético como contextualiza outras expressões que percorrem caminhos que perpassam pela arte, cultura, religião, economia e movimentos políticos.
Estas pequenas considerações, positivas, do muito que a moda tem para ser explorada devem enfatizar que uma grande maioria das mulheres subordina-se a um fenômeno que em maior ou menor grau está por trás de tudo o que ela representa: a busca da beleza.
Maria Laura Ramalho Vasquez
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